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Conheça as propostas dos Pontões e Pontos de Cultura Digital para Teia Nacional: Confira!

Foram 11 propostas que receberam 109 votos com representação de todo Brasil através do Plantaformas

Convocamos a comunidade envolvida e interessada na cultura digital brasileira, durante a pré-teia da cultura digital, a votar 3 propostas a serem levadas para a Teia Nacional 2026. Confira as 11 propostas recebidas, que receberam a distribuição de 109 votos no total https://plantaformas.org/conferences/preteia-culturadigital/f/548/proposals

No final, saímos com 4 propostas, pois houve um empate no 3º lugar. As 4 propostas mais votadas foram:
1 – Formação em soberania digital e economia solidária para Pontos de Cultura – 32 votos;
2 – Financiamento público para a criação e fortalecimento de ecossistemas digitais que integram
plataformas livres desenvolvidas para a Rede Cultura Viva – 18 votos;
3 – Saúde e Cultura Digital: uma abordagem permacultural – 12 votos;
Memória Viva da Cultura: Protegendo a Soberania Digital – 12 votos.

Premissas das propostas vencedoras:

1. Formação em Soberania Digital e Economia Solidária para Pontos de Cultura:

Considerando a inserção da economia solidária no Programa e na Lei Cultura Viva, precisamos estruturar processos formativos online e presenciais para Pontos de Cultura, objetivando fomentar a soberania digital por meio do uso de software livre, da reutilização e do reparo de equipamentos, enfrentando a obsolescência programada imposta pelo colonialismo.

As formações devem abranger a manutenção de computadores, migração para sistemas livres, produção de conteúdo e comunicação digital ética, e modelos de geração de renda solidária com base em tecnologias livres. Ao prolongar a vida útil dos dispositivos, reduzimos o lixo eletrônico e o impacto ambiental, dando tempo à regeneração da natureza. Assim, podemos fortalecer a autonomia tecnológica das comunidades, gerar trabalho e renda e promover uma cultura digital alinhada à justiça social e ambiental.

2. Financiamento público para criação e fortalecimento de ecossistemas digitais que integram plataformas livres desenvolvidas para a rede cultura viva:

Fomento em todas as esferas do poder público através de leis de fomento a cultura municipais, estaduais e federais, como por exemplo a PNAB e a Lei Cultura Viva com a criação de prêmios, editais, mecanismos de financiamento continuado o desenvolvimento e manutenção de ecossistemas digitais que agrupem tecnologias e soluções livres integradas, facilitando o acesso dos fazedores de cultura de um determinado território, região e/ou estado no uso de um conjunto de aplicações complementares para organização do trabalho coletivo, gestão de documentos e equipes, calendário de atividades, acervo e memória temático e/ou territorial, divulgação de informações em redes sociais locais, territoriais e/ou federadas.

Este fomento deve garantir recursos para contratação de programadores, aquisição ou locação de servidores e serviços de infraestrutura, equipes de formação e suporte técnico aos usuários, prevendo recursos para garantir acessibilidade. As linhas de financiamento podem considerar a abrangência, quantidade de tecnologias e funcionalidades que serão integradas, numero de organizações envolvidas na gestão e o potencial de beneficiados de cada ecossistema digital. Estes recursos devem prever 12 meses de funcionamento podendo ser prorrogados por ate 3 anos através de processo facilitado para evitar descontinuidade
do serviço.

Como pré requisito para participar o ecossistema deve comprovar aderência das tecnologias as demandas atual dos pontos de cultura, como referência pode ser utilizado o diagnóstico da cultura digital realizado pelos Pontões de Cultura Digital da Rede das Produtoras Culturais Colaborativas e do Coletivo Digital realizados entre 2025/26. Todas as tecnologias devem ser livres, com seus códigos fontes disponíveis, as instâncias devem estar em servidores soberanos sobre gestão da sociedade civil e em países que possuam uma regulação sobre os dados em consonância com a Lei Geral de Proteção de Dados, uma vez que se tratam de dados brasileiros, acessíveis para uma rede que atua em território nacional.

Deve ser obrigação das organizações beneficiadas, apresentar modelo de negócios que vise a sua sustentabilidade através de serviços acessíveis aos usuários e ou modelos de assinatura que garantam ao final do tempo de financiamento a possibilidade de manutenção e sustentabilidade destes ecossistemas digitais sob gestão da sociedade civil organizada e com atuação direta junto ao território e segmento beneficiado.

O edital deve incentivar a criação de conselhos gestores dos ecossistemas digitais formados por usuárias, desenvolvedores, educadores sociais, comunicadores e parceiros visando criar espaços de escuta com representatividade de todos os atores envolvidos. Este conselho deve buscar garantir paridade gênero, raça e incluir minorias de acordo com o território e segmento contemplados.

3.1. Saúde e Cultura Digital: uma abordagem permacultural:

Há um ditado popular que traduz muito bem a ideia que embasa essa proposta:


“Você tem muitos problemas até descobrir uma doença,
depois disso você tem um problema só”

E são várias as doenças que estão sendo desencadeadas nos ambientes da Cultura Digital: ansiedade, burnout, depressão, distúrbios do sono, sobrecarga de informação, vício em bets, em Instagram, em Youtube etc. Além dos impactos individuais, a cultura digital também pode produzir adoecimentos coletivos, como isolamento social, violência online, precarização do trabalho em plataformas, vigilância constante, concentração de poder nas grandes plataformas e impactos ambientais ligados ao consumo energético e ao lixo eletrônico. Processos que afetam tanto a saúde humana quanto os vínculos comunitários. Por isso, nossa proposta busca na permacultura (cultura da permanência) os métodos para prevenção e enfrentamento desses adoecimentos.

Objetivo
Incentivar ambientes de permacultura digital dentro da Rede Cultura Viva através de campanhas, cartilhas, zines, rodas de conversa, oficinas, vivências, convivências e escuta ativa. Ao mesmo tempo, através de parcerias (MinC, SUS, PF etc.), colocar pessoas especializadas nesses temas à disposição, por um número emergencial, para a identificação de riscos mais imediatos.

Contexto
A conexão entre o digital e a permacultura aparece quando passamos a entender a tecnologia como um ecossistema vivo — algo que também precisa respeitar limites, ciclos, diversidade, cuidado e sustentabilidade. Tudo isso também faz parte da essência do que é a Cultura Viva e de como a identificação dos Pontos de Cultura foi conceituada.

Ela envolve:

  • uso consciente do tempo e da atenção;
  • plataformas comunitárias e cooperativas;
  • software livre e autonomia tecnológica;
  • redes descentralizadas, federadas ou distribuídas;
  • proteção de dados e privacidade;
  • diversidade cultural e linguística;
  • ritmos menos acelerados;
  • espaços digitais moderados por cuidado comunitário e não por engajamento algorítmico;
  • incentivo a encontros presenciais e vínculos territoriais;
  • infraestrutura de baixo impacto ambiental;
  • reparabilidade e longevidade tecnológica.

Ela questiona:

  • softwares que se assemelham a monoculturas transgênicas dependentes de agrotóxicos:
    concentram poder, criam dependência, adoecem os corpos, reduzem diversidade e extraem
    valor dos territórios e das pessoas;
  • plataformas que exploram compulsivamente a atenção das pessoas e violam o cuidado com a
    saúde mental;
  • infraestruturas digitais baseadas em mineração intensiva, lixo eletrônico e consumo
    energético excessivo que ferem o cuidado com a terra;
  • monopólios tecnológicos e concentração de dados que entram em conflito com economias
    justas e solidárias.

Se você, como nós, acredita que os ambientes digitais podem se tornar mais saudáveis com essa
abordagem, então essa proposta também é sua! 🙂

3.2. Memória Viva da Cultura: Protegendo a Soberania Cultural:

A Memória Viva da Cultura é uma iniciativa voltada à proteção, preservação e circulação da produção cultural brasileira em ambiente digital; nasce como resposta à concentração da memória cultural em plataformas controladas por big techs.

A oralidade, para as civilizações africanas e afro-brasileira, não é a ausência de tecnologia, mas uma tecnologia sofisticada de transmissão de saberes e uma tecnologia do encontro. Ela constitui uma forma de arquivamento da memória coletiva que antecede e transcende a escrita, preservando o axé (energia vital) e a cosmologia de um povo através da palavra, do canto, do gesto e do silêncio.

A memória não é um registro estático, mas um arquivo vivo, constantemente ressignificado na performance e na interação comunitária, em contraste com a concepção ocidental de memória como um dado fixo e linear. Essa reorientação tecnológica, baseada na afrocentricidade proposta por Molefi Kete Asante (1987), implica questionar as tecnologias externas não para rejeitá-las, mas para reorientá-las sob princípios éticos e culturais próprios.

Nesse contexto, a questão da memória digitalizada assume uma importância central no cenário contemporâneo, preservar essa memória para as gerações futuras é um desafio estratégico para a soberania cultural. A produção cultural e as narrativas comunitárias ficam sujeitas a riscos como apagamentos, controles algorítmicos opacos, perda de acesso e exploração comercial, gerando uma dependência tecnológica que ameaça a preservação do legado criativo.

A proposta consiste na criação de uma plataforma de mapeamento, registro, curadoria e preservação de atividades culturais do Cultura Viva, para a colaboração de artistas, mestres, coletivos, Pontos e Pontões de Cultura, terreiros, museus e demais agentes culturais. A plataforma funcionará como agenda de eventos e também como um arquivo vivo de textos, imagens, áudios, vídeos e outros registros culturais, hospedados em infraestrutura soberana.

Um dos núcleos do projeto é o depósito cultural assistido, permitindo que autores compartilhem cópias autorizadas de conteúdos originalmente publicados em redes sociais, respeitando direitos autorais, privacidade, licença e definição de visibilidade. A plataforma dialoga com ferramentas contemporâneas de código aberto, como dados federados, IA, RSS, APIs etc. Esses recursos poderão gerar newsletters, recomendações e consultas inteligentes por cidade, território, região, linguagem artística ou comunidade envolvida, ampliando e acelerando a descoberta, curadoria e circulação da produção cultural brasileira.

Os dados acumulados podem ajudar a retroalimentar políticas públicas de cultura digital, promovendo diagnósticos, mapeamentos e reorientações de investimentos, consolidando a Memória Viva da Cultura como uma proposta de soberania cultural. O desafio reside em encontrar o equilíbrio entre preservação e inovação, garantindo a resistência do sagrado e do criativo, e que a tecnologia sirva à ancestralidade, não o inverso.

Agradecemos a todas as pessoas que enviaram e votaram nas propostas colaborando com este processo participativo!!!

Organização e Documentação https://colaborativas.net/author/carloslunna/

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Sandro Barros

Jornalista, Fotógrafo, Produtor Cultural, amante da Cultura Tradicional e Ancestral do Brasil. Integrante do Pontão de Cultura Digital iTeia. Ọmọ Òrìṣà ti Ayrá e Juremeiro da Ilê Axé Oxalá Talabí

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